domingo, junho 02, 2013

Turquia: Protesto ou revolução? - Violência fora de controle

Mais de 40 mil pessoas foram relatadas como protestando contra a destruição do último parque verde na capital Istambul, na Turquia. Chegando ao 6º dia de violentos confrontos entre manifestantes e a polícia de Ankara foi acusada de matar um manifestante neste domingo com um tiro na cabeça.


Policiais uniformizados e paisanas se preparam para enfrentar os manifestantes - Foto cortesia: #occupygezi
Por Saulo Valley - O Observador do Mundo - Rio, 02 de Junho de 2013 - 07:48 GMT-3
Atualização: 03-06-2013 as 05:48

   Na calçada onde o rapaz foi morto, há flores e cartazes. De acordo com testemunhas locais, após ser assassinado, os policiais retiraram o corpo rapidamente.

Morto com um tiro na cabeça, corpo de manifestante foi rapidamente retirado por policiais
 - Foto cortesia de: #occupygezi
A manifestação pacífica que pedia o cancelamento do projeto, que prevê a destruição do parque central em Istambul para a construção de um Shopping, foi recebida com muita firmeza pelas autoridades. Estes isolaram o local no quinto dia, forçando os manifestantes a se dispersarem. Isto levou o centro comercial de Istambul a se tornar uma praça de guerra. Mas a liberação do parque Gezi mais tarde, pelas autoridades, atraiu de volta milhares de manifestantes que na verdade, estavam sendo atraídos para uma emboscada. A polícia planejava trancar o parque com os manifestantes dentro dele, para iniciar um processo de correção e detenção coletiva.

Polícia acusada de usar gás lacrimogêneo e gás de pimenta
excessivamente - Foto cortesia de: #occupygezi
Enquanto isto ainda na tarde deste sábado, em outras ruas manifestantes desafiavam os jatos de água e o excessivo uso de bombas de gás lacrimogêneo e gás de pimenta por parte da polícia, que na ânsia de controlar a multidão exaltada, acabou partindo para a guerra. Ainda outras 7 cidades foram infectadas com tensas manifestações populares, inclusive em Ankara.

   Desde o o dia 31 de Maio helicópteros estão lançando bombas de gás de efeito moral entre outros.



Video: Repórter da BBC procura entender os acontecimentos nas ruas de Istambul.


Análise inicial da crise

   A Turquia está geograficamente localizada entre países árabes, a maioria deles muçulmanos. Em seu esforço para tornar outros países mais seculares, como ele mesmo tem apoiado diversas revoluções da primavera árabe, como a revolta tunisiana, egípcia, líbia e síria, que visa tornar estes países mais democráticos, despertou o ódio islâmico que acredita que o governo turco quer abrir espaço para o cristianismo e o secularismo em terras islâmicas.

   A Turquia ainda é proprietária (por posse) de território que antes pertencia aos curdos. Durante décadas (porque não dizer milênios) houve guerra armada entre o governo turco e a milícia rebelde curda hoje conhecida como PKK, no "curdistão turco". Mas no início de 2013 a milícia assinou tratado de cessar-fogo com o governo de Erdogan e a paz foi estabelecida. Mas não significa que os curdos desistiram de recuperar suas terras.

   A Turquia está diretamente envolvida com os rebeldes que buscam derrubar o presidente sírio Bashar Al-assad. Em seu território estão estabelecidos diversos acampamentos para refugiados sírios e campos de treinamentos de rebeldes do FSA, bem como seu quartel-general. Alassad jurou vingança, desde que em meados de 2011 o governo turco rompeu as relações de amizade com a Síria.

   As razões para a onda de protestos que tem se espalhado no país, ainda não estão muito claras. Mas já está claro que o que levou a maior parte das pessoas a saírem de suas casas demonstrar é a vontade de mudar o governo. Além disso a revolta tem sido apoiada por diversos grupos e tem o apoio moral de pró-assads, shabihas, salafistas, políticos de oposição. Isto pode representar que os países que tiveram seus líderes derrubados podem estar enviando seus agentes para se unir aos manifestantes e elevar a manifestação pacífica ao nível de combate esperado pelos inimigos, que podem estar se aproveitando da volumosa manifestação para mudar os rumos dos protestos.

   Pra completar, Irã, China e Rússia têm profundo interesse em derrubar o sistema de governo turco, para quebrar a influência americana na região, assim como os EUA se esforçam para ver o fim do regime de Assad, o maior aliado da Rússia, China e Irã no Oriente Médio. Com a queda de Al-assad, a Rússia perderia sua única referência na região e Israel ( que tem grande população secular, apesar de ser referência para muitas religiões) se enfraqueceria com a perda do apoio da Turquia, caso ela se tornasse um regime islâmico, por exemplo.

   O Ministério da Defesa russo anunciou as "revoluções populares" ou a "primavera árabe" como a "Terceira Guerra Mundial", destacando que os levantes constituem na forma mais barata de arrasar um país sem pôr um soldado nas ruas, sem gastos com transporte de armas suprimentos logísticos. E que esta seria sua estratégia para os próximos 10 anos...

Internacional

   Uma forma de pagar com a mesma moeda, o governo sírio enviou uma mensagem nada sarcástica para o governo turco, pedindo para que "pare de reprimir manifestantes pacíficos". Com a mesma moeda, o ministro sírio disse que Erdogan deveria "renunciar" ao seu cargo, assim como aconselhou ao presidente sírio diversas vezes desde o início do levante em 15 de Março de 2011. A mensagem divulgada pela agência "SANA" foi proferida pelo Ministro da Informação, senhor "Omran al-Zoubi" neste sábado. Em seu pronunciamento, o ministro inteirou:

"Erdogan leva o seu país de uma forma terrorista e está destruindo o caráter público do povo turco, reiterando que as demandas do povo turco não merece toda essa violência."

Ativistas e Greepeace

   Em apoio ao verdadeiro movimento pela manutenção do Gezi Park, manifestantes, comerciantes locais estão distribuindo comida, máscaras anti-gás, além de remédios, disseram ativistas neste sábado e no domingo. Desde o início da manhã, ambientalistas iniciaram uma operação de limpeza do Gezi Park, coletando uma grande quantidade de lixo. Até crianças estão ajudando no serviço voluntário.

   Por outro lado nos meses anteriores já vinham acontecendo manifestações isoladas que agora ganharam proporções enormes, influenciadas pela explosão dos últimos dias. Ambientalistas estão realmente dedicados a proteger o parque, enquanto que longe dali, os confrontos continuam entre manifestantes de diversas outras demandas e as forças de segurança.

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