quinta-feira, maio 16, 2013

Tempo de lamento sobre a Síria - Saulo Valley

Após 26 meses de violência, o povo sírio continua no mesmo impasse, nas mesmas incerteza, ainda submerso no mesmo mar de sangue. O que pode ser feito para mudar a situação do povo da Síria?


MANIFESTAÇÃO SILENCIOSA - Proibidos de se manifestar publicamente populares em desobediência ao regime saíam nas madrugadas para pedir o fim do genocídio ao qual estavam sendo submetidos diariamente. Uma dor jamais testemunhada pela humanidade globalizada. Infelizmente ninguém acreditava no grito silencioso deste povo.
 Por Saulo Valley - O Observador do Mundo - Rio, 16 de Maio de 2013 - 19:40 GMT-3

   Nós do Saulo Valley Notícias e nossos parceiros internacionais começamos a cobrir fielmente a crise síria em Abril de 2011. A revolução que havia iniciado oficialmente no dia 15 de Março, na verdade era reflexo de problemas aprofundados na vida dos sírios no decorrer das décadas anteriores. Um governo que regia seu povo com punho de ferro, lei de emergência nacional com 48 anos de idade, e muita, muita brutalidade. Um povo escravizado. Dominado para gerar receita para uns poucos membros do clã Assad, cujos plenos poderes estavam acima dos direitos de todo cidadão nascido dentro de suas fronteiras.

   De crianças detidas e torturadas pelo Serviço Secreto a jovens adolescentes estupradas diante de todos os familiares, que além de expectadores forçados, estavam na fila da humilhação, vergonha, tortura e mutilação nas mãos dos temidos monstros de nome "Shabihas".

Esta foto registrou a primeira vez que tropas rebeldes prenderam um grupamento de shabihas
   As primeiras manifestações silenciosas aconteceram no dia 15 de Março de 2011, quando um grupo de mães e ativistas políticos usaram seus cartazes para pedir (silenciosamente) a libertação das crianças e dos presos por consciência. Este gesto de amor levantou uma tão grande nuvem de ódio, que Bashar Al-Assad, enviou tropas armadas para castigar os humildes manifestantes com a força dos cassetetes. Arrastadas pelos cabelos ainda aos golpes dos coturnos, mulheres idôneas de todas as idades foram levadas à prisão, para testemunhar na própria pele, o que representavam aquelas manifestações aos olhos da ditadura.

   Eram cerca de 40 novos presos que acabaram atraindo mais 300 familiares e amigos para as praças, que em silêncio, apenas cantando louvores e orando, pediam a soltura de tantas pessoas inocentes, que com o passar de décadas, já chegavam à casa dos milhares. Milhares de presos políticos, oposicionistas, pensadores, escritores, jornalistas, advogados e pessoas leigas que ousaram reclamar algum prejuízo causado pela própria força dos abusos dos homens do governo sírio.

   Bashar Al-assad não era um homem comum. Sua fala mansa e seu semblante aparentemente tranquilo e ingênuo escondia as marca de uma formação rígida recebida de seu pai Hafez Assad. Apesar de ser o mais moço dos irmãos foi escolhido para ocupar o cargo que seu pai lhe deixara após sua morte em 2000. No primeiro momento a impressão que se tinha era que Assad não seria capaz de exercer um regime tão rígido quanto seu pai, que em 1982 ordenou o massacre de mais de 10.000 pessoas que foram consideradas rebeldes ao regime. Mas Assad não parecia ser tão malvado assim. Sua expressão pacata levou o mundo inteiro a endossar seus pronunciamentos amistosos.

Enquanto os cemitérios eram atacados por forças sírias, as praças se transformavam em cemitérios públicos. Para desmentir as denúncias, a agência de notícias do governo sírio criou esta matéria, alegando que "Os parques e Jardins de Damasco se converteram em lugares de reflexão e alegria..."
   Enquanto afirmava que a paz reinava no país, suas tropas e seus tanques invadiam as ruas de Daara e Homs com carta branca para exterminar os traidores do regime. Incluídas na lista da morte, os nomes de todas as pessoas ligadas direta ou indiretamente aos que pediam mais justiça, democracia e menos corrupção.

Tropas militares se multiplicavam nos bairros residenciais enquanto que o regime sírio
alegava que o exército estava nos quartéis.
   Assim, dias de busca por justiças e liberdades se converteram em dias de dor indescritível e permanente. Milhares de milhares esmagados dentro de suas casas demolidas por bombardeios, milhares de milhares carbonizados por armas incendiárias, milhares de milhares mutilados por facas e machetes, estuprados, metralhados, torturados, detidos indefinidamente, expulsos de suas casas, desempregados, famintos, isolados, caçados por ferozes assassinos mercenários.

Com a evolução da crise, os populares pediam a implantação de
uma "zona tampão" que nunca aconteceu.
   No lado político o país se viu numa ciranda, onde a mortandade se tornou uma moeda de troca. Injustiçados no terreno, a vista do satélite tornou o país num gigante tabuleiro de um jogo de estratégia em tempo real, com acirrada disputa entre Rússia e Estados Unidos. A quem será atribuída maior influência na região? ...E à quem será atribuída a responsabilidade pelas dezenas de milhares de mortes?
   Na prática, esta injustiça ainda promete se prolongar. À cada novo dia os problemas se aprofundam. As lideranças locais são tomadas de assalto por forças duvidosas e os interesses exploratórios da crise vão mudando, levando o povo a um futuro de dor ainda mais extrema e obscuras incertezas. Dúvidas sobre o fim da mortandade e da miséria imposta para pessoas comuns que um dia sonharam com uma Síria melhor, mais moderna e mais humana...

   Neste tempo de trevas obscuras, o fogo das armas parece querer provar o sentimento de solidariedade que moveu aqueles 300 manifestantes a pedir a libertação daquelas mães desesperados por seus filhos. O tempo de desobediência que expôs o regime mais fechado do mundo moderno, criando oportunidades para ferozes vizinhos que planejam colonizar suas terras. Colonialismo territorial ou cultural? Não mudará muito. O que mudou para sempre é que o povo sírio jamais será o mesmo e esta cicatriz ficará marcada em seus rostos para todo sempre; Porque sem liberdade, não há felicidade.

Atualizações - 21:23

   Informações enviadas pelo Observatório Sírio para os Direitos Humanos nesta sexta refletem esta realidade: 145 pessoas foram massacradas no Banias, num crime que descreveu como "Massacre Sectário". Ainda outras 30 pessoas foram mortas pelo regime sírio no bairro de Douma, na cidade de Damasco.

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