domingo, dezembro 16, 2012

Natal no Rio é Natal sem água encanada. Como fazer a Ceia?

O pobre se esforça o ano todo pra juntar um dinheirinho. Vem pagando longas prestações e trabalhando dobrado pra que no fim do ano, consiga realizar uma linda festa de natal ao lado de seus filhos, familiares e amigos mais chegados. Quando os preparativos começam às vésperas da grande festa: Não tem água encanada.


Por falta dágua a população pobre precisa comprar carros-pipa, mas pra regar
grama, nunca falta. Acontece em Sepetiba. Foto: Saulo Valley
Por Saulo Valley - Rio de Janeiro, 16 de Dezembro de 2012 - 17:57 GMT-3
Atualização: 20:10

Daqui até o fim do ano será a mesma agonia de todos os anos. No Bairro Penha, por exemplo as comunidades estão penando desde a chegada do calor, ou seja há muito tempo. Estive na Vila Cruzeiro conversando com as pessoas, mas antes de reproduzir aqui nestas linhas, o que elas dizem, deixe-me expressar as minhas impressões como Observador da vida cotidiana:

As pessoas estão na maior correria. Os supermercados estão lotados e as feiras-livres estão tendo o maior lucro do ano. Tudo indo às mil maravilhas para o comércio aquecido de alimentos, exceto para o outro lado da moeda. Os consumidores da Zona norte do Rio, que em sua maioria, estão numa verdadeira berlinda.

Ao sair do supermercado eles mal conseguem se mover, de tantas sacolas abarrotadas de comida. Muitos preferem pegar táxi, outros enchem seus carros de passeio de compras e outros se arriscam nas vans e nos ônibus. É a vida, mas cada um precisa chegar de volta a seu lar para os preparativos da ceia de Natal!

Como formiguinhas agitadas e super ocupadas, a multidão de pessoas corre para levar mantimentos pra casa e voltar depois pra buscar mais comida. Uma verdadeira correria. cada vez que se chega em casa, percebe-se que falta mais alguma coisa...

Então depois de deixar a geladeira quase sem poder fechar as portas (quando não se tem freezer) volta correndo para o mercado. Legal isso, mas quando percorremos os lugares mais humildes desta "Cidade Maravilhosa" e pesarosa para a maioria, vemos que elas não terão o Natal do jeito que aparece na TV.

Porque no meio de tanta correria pela compra de alimentos há o que se pensar, pois a escassez de água é uma realidade. Com tantos mantimentos perecíveis estocados, um calor assombroso e uma seca danada, com é que as famílias podem realizar o banquete dos sonhos?

Na noite de Natal, as crianças estão esperando realizar muitos de seus sonhos,
uma realidade que para os pais é quase um pesadelo. Foto: Saulo Valley
Na Vila Cruzeiro, é um tal de crianças entre 6  e 12 anos carregando vasilhas com água morro acima... dá muita dó. Sempre acompanhadas de suas mães, os miudinhos se esforçam pra levar este líquido sagrado, a fim de ter a alegria de comer coisas deliciosas, que quase sempre não tiveram acesso o ano inteiro.

Para quem mora nas comunidades instaladas nos morros da cidade, onde a água da CEDAE quase nunca chega, é um "Deus nos acuda!" Pra falar a verdade, há muitos que preferem ficar só no churrasquinho com umas bebidas com álcool e refrigerantes pras crianças...

Um esforço sobre-humano que não dá pra superar a ausência do estado nestas regiões, e até mesmo a falta de interesse em regularizar as infra-estruturas desses verdadeiros bairros verticais. Diga-se de passagem o comércio sofre até demais com isso. Bares, lanchonetes e restaurantes acabam fazendo das tripas, coração para continuar o atendimento, quando (no meio da madrugada) não entra água para abastecer o depósito.

Conversando com o Sr. Celso, que é Presidente da Associação de Moradores da Vila Cruzeiro, fiquei sabendo que nem a sua casa está livre da falta de água. Não é diferente das ruas que ligam os Morros da Vila-Cruzeiro, Merindiba e Chatuba ao centro comercial da Penha. A maioria das residências recebe uma ínfima quantidade de água durante a madrugada. Há ruas como a José Rucas e Nossa Senhora da Penha que durante todo quase o ano só um lado da rua recebe água...

Praça Panamericana - Sr. Édson R. Fonseca - Aposentado - Foto Saulo Valley

No outro lado da estação, não é diferente. No lado que é considerado mais nobre da Penha só se ouve reclamações o ano inteiro. Idosos que acordam todas as noites as 03:00 da madrugada para conseguir pegar uns baldes de água e levar pra dentro de casa, já que a bendita cuja, nem tem forças pra subir nas caixas dágua! É a reclamação do aposentado sr Édson, que mora perto da Praça Panamericana. Ele foi operado diversas vezes. Utiliza prótese de platina no Cox e diversas lesões na coluna cervical, depois de longos anos servindo ao país como Paraquedista,  teve seu pagamento em forma de diversas complicações de saúde. Mesmo assim, passa muitas noites esperando ouvir o adorável som das gotas de água caindo nos baldes, colocados embaixo da torneira do jardim.

Via Facebook, o comerciante Edson X. dos Santos comentou:

"Olá amigo Saulo Valley.Tudo bem? Concordo com você sobre a falta d'água na Penha.Tá uma vergonha,sem falar que tenho que sempre estar ligando bomba d'água com isso aumentando minha conta de luz."

Continua...

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