domingo, janeiro 08, 2012

Nota de Falecimento do meu Pai em 06-jan-2012

Às 14 horas do dia 06/01/2012, meu pai faleceu. Foi um sentimento de confusão e de espanto ao ver dentro daquele caixão, o corpo inerte mais jovem da história de minha família. Faleceu aos 69 anos quando a média é de 89. Curiosamente morreu de uma doença descrita como "coração grande". Seu amor para com a humanidade estava estampado em suas ações. Mas infelizmente não teve tempo para cuidar de sua própria vida.




Por Saulo Valley - Rio de Janeiro, 08 de Janeiro de 2012 - 08h24min.

 Até 2 meses atrás era forte como um touro. Percorria algumas centenas de quilômetros caminhando apenas para visitar enfermos. Utilizava a bicicleta para quase cruzar o Rio de Janeiro, levando remédios, bananas (que ele mesmo cultivava) e livros. Esta era uma atividade que ele considerava uma missão, embora achasse-mos "graça" por saber que ele distribuía remédio sem prescrição médica ou mesmo sem saber se as pessoas estavam doentes (é claro que as pessoas não consumiam os remédios, mas elas entendiam a mensagem). Mas este era seu estilo de vida. Era o que ele acreditava estar fazendo para ajudar as pessoas.

Muito antes de estar aposentado, gastava grande parte do seu tempo visitando parentes e amigos, demonstrando cuidado, preocupação e solidariedade. Era tão ocupado que mal visitava os filhos. Mesmo assim, no seu funeral, encontramos um grupo grande de pessoas que nunca havíamos visto e outras que só nos viram ainda bebês, agradecendo todo o cuidado que meu pai teve com elas em 10, 20, 30, 40, 50 anos!

Foi enterrado pelos que mais o admiravam de perto, seu talento como cantor de canções cristãs, e aplaudido pelos que recebiam sua visita e cuidado por anos. Meus parentes ficaram impressionados com os depoimentos das pessoas que recebiam sua atenção...

Me vi espelhado naquele caixão. Olhei para dentro de mim mesmo e percebi que aquela era uma amostra do meu próprio funeral.

Lembro-me de quando era adolescente (13), meu pai me deu de presente meu primeiro livro que se chamava "Em busca de uma Pátria". Este livro contava a história do missionário cristão americano David Byrne que por volta de 1880 visitava as aldeias indígenas da América do Norte em missão evangelística. Ele lutava contra a prática de magia negra e sacrifício humano e de animais. Sofria de tuberculose e muitas vezes chegou a abandonar o tratamento em sua casa, para voltar aos campos missionários e pregar a mensagem do cristianismo para as tribos. David era ameaçado e perseguido pelos feiticeiros das tribos, mas o missionário David Byrne morreu de tuberculose, que adquiriu por falta de alimentação e a excessiva exposição à friagem e ao rústico padrão de vida das aldeias.

Esta história me despertou o desejo de viver para tornar minha vida algo mais interessante que colecionar carros, casas e status. Mas meu pai morreu isolado (por escolha própria) e ao mesmo tempo cercado de pessoas humildes com quem compartilhava tudo o que possuía. Construía casas além de distribuir ajuda humanitária. Não era nada profissional. Agia por impulso e sem coordenação de qualquer instituição, mas acima de tudo, queria viver para fazer do pouco que lhe restava de vida, algo que realmente valesse à pena.

Após o seu enterro visitamos a casa em que vivia e todos ficaram surpresos com a quantidade de coisas valiosas misturadas às coisas que não valiam nada espalhadas por todos os lados. Desprovido de ambição, acumulava coisas que ia distribuindo à medida que fosse sendo solicitado. Chegava a gastar quase todo o seu salário para comprar coisas para as pessoas que visitava de acordo com sua agenda de visitas informais.

Apesar de termos tido uma infância avassaladora por causa das crises entre nossos pais, cheios de mágoas fomos ao seu enterro e voltamos perplexos ao ver que, apesar de tudo ele viveu para cuidar dos que mais necessitavam.

Então, eu que já nasci com este legado, deixo aqui registrado que apesar de tudo o que sofri na minha infância nas mãos de meu pai, ele morreu como um herói dos fracos e oprimidos e não só eu, mas meus outros irmãos temos orgulho de saber que estas pessoas foram felizes ao seu lado.

Foi através de sua vida que decidi que até quando morrer, vou viver dando a minha vida para cuidar das que não têm oportunidade. É por isto que sou assim. Agora está mais que explicado. Democracia, direitos humanos e igualdade para todos, este é o legado que recebi e estou continuando com felicidade de estar mais vivo que nunca!

NOTA: Trabalhar com direitos humanos exige cuidados extremos com a vida alheia. por esta razão, não é possível publicar o nome do meu pai, para a proteção da minha família.

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