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Síria: A visão de jornalistas infiltrados não difere dos habitantes.

"Aquele que se isola busca seu próprio interesse." Palavras do sábio Salomão registradas na Bíblia Sagrada. A comunidade internacional tem insistido para que o regime sírio conceda permissão para que jornalistas internacionais possam confirmar a sua versão de que grupos terroristas estão matando civis cruelmente. Mas as portas continuam fechada desde Março deste ano.


Por Saulo Valley -Rio de Janeiro, 26 de Novembro de 2011 - 08h34min

Este isolamento de informação obrigou os sírios a se tornarem repórteres de suas próprias tragédias, para que de alguma forma pudessem convencer a opinião internacional de que estavam mesmo vivendo um grande massacre. Isto levou o youtube a se tornar a "TV do massacre". As câmeras e celulares se tornaram ferramentas de legistas internacionais que mostravam em detalhes os ferimentos nos corpos das vítimas, para que de longe, bem de fora das muralhas do bloqueio militar da Sìria, os crimes pudessem ser confirmados.

Snapshot de vídeo que mostra o calibre das balas
retiradas do corpo do manifestantes.

9 meses se passaram sem que nenhuma agência de notícias pudesse entrar legalmente na Síria, apesar de ter acordado com a Liga Árabe em 26 de Agosto deste ano. Os nomes das agências escolhidas chegaram a ser citadas como escolhidas por Al-Assad, que não cumpriu um termo sequer do acordo. Aliás, a Síria vem descumprindo acordos com as Nações Unidas, Liga Árabe, Conselho do Golfo e União Européia, menos com o Irã, Hezbollah, China e Rússia.

Agências clandestinas

Por razões lógicas, algumas agências de notícias decidiram se arriscar a enviar jornalistas clandestinamente para a Síria, para confirmar as denúncias feitas pelos celulares dos manifestantes. Já citamos aqui o jornalista Paul Wood da "BBC", Jonathan Rugman para o "Channel 4", agora Mani, o repórter fotográfico da agência ucraniana "Guardian" e a jornalista libanesa Sofia Amara da agência italiana "RSI LA1" que na minha opinião reuniu as provas mais concretas do que realmente acontece na Síria, até agora.

À medida que as agências vão adentrando no "submundo" da revolução síria descobre que por imposição do regime de Al-Assad o país tem vivido num verdadeiro submundo, enquanto que apenas o presidente e seus apoiadores estão vivendo num mundo confortável, farto e seguro.

As agências também são capazes de ver que o que cada celular e câmera registraram das mãos de manifestantes voluntários é a pura verdade, mas não tem sido valorizadas o suficiente para que as autoridades internacionais se mobilizem para dar fim ao plano sírio de exterminar 100% da população oposta a Al-Assad, o que representa pelo menos 80% do pais".


Assim que a revolução começou, comecei a conversar com os manifestantes, e entre seus vídeos e fotos de baixíssimas qualidades, ao mesmo tempo de altíssimas fidelidade, encontrei seres extremamente humanos, sensíveis, honestos e sinceros. Pessoas dispostas a morrer para garantir uma manifestação pacífica e um novo "governo democrático e moderno". O motivo, é que eles não querem se comprometer com nenhum grupo em particular para que mais tarde não venham a exigir lugar no poder.

Já em Abril/2011 se podia ver que um mar de sangue
de civis seria derramado por Al-Assad. 
 Com forte pressentimento, ao ponto de derramar lágrimas profundas por vários dias, comecei a descrever o que estava vendo no meu contato direto com os sírios, que em sua maioria estão conversando comigo até hoje, mas há muitos casos de mortes de seus familiares ou a perda de todos os seus pertences, ou mesmo o abandono de suas casas para irem para lugares incertos, improvisados, desconfortáveis e temporários.

 Antes de iniciar o mergulho profundo na crise síria, me certifiquei se não estava apoiando grupos terroristas, disfarçados em manifestantes. Investiguei detalhadamente cada pessoa que me relacionei e principalmente o lado oposto. Mergulhei nos diálogos do regime e acompanhei suas operações militares, bem como seus próprios registros e observações sobre os mesmos eventos registrados pelos manifestantes em oposição ao regime. O que resultou na certeza de que Al-Assad estava se preparando para aniquilar 100% da oposição síria à qualquer preço, mas o Exército Livre foi um fenômeno que lhe surpreendeu e tem atrasado seu plano original, que mesmo assim ainda é mantido e seguido, mesmo com alguns improvisos para a sua manutenção e preservação.



 A tentativa de intervenção por parte da Liga Árabe já era esperada, bem como o Conselho do Golfo e as Nações Unidas. Al Assad havia planejado como perpetuar esta conversa diplomática e ir retardando até que conseguisse executar a todos os líderes das comunidades rebeladas.

 No mês de Maio, os manifestantes sírios se mostraram completamente surpresos com o grau de violência que Al-Assad havia imposto para garantir sua posição no poder. Estarrecidos com o grau das torturas e execuções, precisaram se "adaptar" para subir a um patamar mais alto e suportar a repressão em seu nível máximo!  Al-Assad não achava que a população síria suportaria a pressão e arregalou os olhos literalmente quando viu uma gigantesca multidão marchando na direção dos tiros das forças de segurança.


Para impedir que continuassem progredindo na direção dos tiros, passou a implantar o toque de recolher com duração de 21 horas por dia, nas cidades ocupadas. Este era tempo que o exército sírio gasta bombardeando as casas. 


Omissão das autoridades?

O que aborrece de verdade é que desde maio as Nações Unidas não reconhecem as novas mortes, tendo congelado o total de 3600 mortos há meses, ao passo que diariamente são enterradas entre 10 e 20 pessoas. Há dias com quase 50 mortes.


Mulher síria morta dentro de casa pelas forças de segurança.
Depois do massacre de Hama as autoridades pararam de publicar o número oficial de mortos, o que ajudaria a pressionar Al-Assad. Outra coisa é o fato destas mortes serem por execução, tortura e muitas mutilações. Pelo menos 250 crianças morreram de Março até a data de ontem. Só agora, 9 meses depois, a UNICEF tem exigido das autoridades maior cobrança da Síria pelos crimes contra os direitos humanos, apesar de milhares de presos estrem sendo torturados e mutilados até a morte em subterrâneos no país.

Para quem não sabe, é da cultura do país que todas as construções tenham abrigos subterrâneos. Todas as casas, sem excessão possuem porões. Isto também acontece em Israel. Talvez seja por isto que o exército bombardeie tantos as partes altas das casas.

A verdade é que à título de emergência, a Síria não precisa esperar os  500 observadores, nem a imprensa, para que tenha direito à justiça. Com base nas provas e documentos apresentados, já poderia ter acelerado a criminalização do atual regime sírio e a acusação formal de Al-Assad como principal mandante de todos os crimes cometidos no país, bem como seu partido Ba'ath e seus líderes. Porque todo este material gravado pela população síria não pode ser reconhecido como prova? Porque precisam esperar mais 3 meses para as agências ou os observadores  conseguirem entrar no pais para atestar o que todo mundo já tem certeza?

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